terça-feira, 10 de janeiro de 2012
A DIMENSÃO CRIATIVA DA IMAGO DEI
A maior unanimidade na interpretação da imagem de Deus ao longo da história da
teologia é a relação que se faz entre ela e a vocação humana de dominar o
Universo criado. Os estudiosos estão de acordo que a expres–são "imagem e
semelhança de Deus" quer afirmar duas coisas: a posição privilegiada que cabe ao
ser humano em relação ao restante da criação e a função de representar Deus no
Universo. Clemente de Alexandria não considerava que a semelhança entre Deus
e o homem estivesse no ser, mas sim no agir: o ser humano assemelha–se a Deus
quando faz o bem e exerce domínio sobre as coisas. Gregório de Nissa disse; quea determinação, no sentido de liberdade e de exercício de domínio sobre a criação,
é uma expressão da imagem de Deus.
O poeta bíblico expressa essa singularidade do ser humano em relação a criação,
singularidade esta que o faz detentor da vocação de dominada:
Quando contemplo os teus céus, obra dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali
firmaste, pergunto: Que é o homem, para que com ele te importes? E o filho do
homem, para que com ele te preocupes? Tu o fizeste um pouco menor do que os
seres celestiais e o coroaste de glória e de honra. Tu o fizeste dominar sobre as
obras das tuas mãos; sob os seus pés tudo puseste: todos os rebanhos e manadas, e
até os animais selvagens, as aves do céu, os peixes do mar e tudo o que percorre
as veredas dos mares.
Salmos 8:3–8, NVI
O Deus da Bíblia é um Deus que trabalha desde a eternidade. O labor divino é
uma forma de Deus revelar–se singular:
Ó Soberano SENHOR, tu começaste a mostrar ao teu servo a tua grandeza e a tua
mão poderosa! Que Deus existe no céu ou na terra que possa realizar as tuas obras
e os teus feitos poderosos? Deuteronômio 3:24, NVI
Meditarei em todas as tuas obras e considerarei todos os teus feitos. Teus
caminhos, ó Deus, são santos. Que deus é tão grande como o nosso Deus? Tu és o
Deus que realiza milagres; mostras o teu poder entre os povos. Salmos 77:12–14,
NVI
E por meio do seu trabalho que Deus compartilha sua alegria com os seus: "Tu me
alegras, SENHOR, com os teus feitos; as obras das tuas mãos levam–me a cantar de
alegria. Como são grandes as tuas obras, SENHOR; como profundos os teus
propósitos!".18 A atividade de Deus revela sua sabedoria: "Quantas são as tuas
obras, SENHOR! Fizeste todas elas com sabedoria! A terra está cheia de seres que
criaste".19Enquanto age, Deus a perpetua entre a raça humana: "Grande é o
SENHOR e digno de ser louvado; sua grandeza não tem limites. Uma geração
contará à outra a grandiosidade dos teus feitos; eles anunciarão os teus atos
poderosos. Proclamarão o glorioso esplendor da tua majestade, e meditarei nas
maravilhas que fazes. Anunciarão o poder dos teus feitos temíveis, e eu falarei das
tuas grandes obras. Comemorarão a tua imensa bondade e celebrarão a lua justiça.
O SENHOR é misericordioso e compassivo, pacien–te e transbordante de amor. O
SENHOR é bom para todos; a sua compaixão alcança todas as suas criaturas.Rendam–te graças todas as tuas criaturas, SENHOR, e os teus fiéis te
bendigam".20O povo de Deus confia em Deus por saber que ele trabalha:
"Entregue o seu caminho ao SENHOR; confie nele, e ele agirá",21 pois "desde os
tempos antigos ninguém ouviu, nenhum ouvi–do percebeu, e olho nenhum viu
outro Deus, além de ti, que trabalha para aqueles que nele esperam".22
Essa visão do Deus laborioso inspirou Jesus em sua resposta àqueles que
questionavam suas atividades no sábado, o dia do descanso confor–me a lei
judaica, de Moisés: "Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também".23 Muito
mais do que uma defesa do ativismo, a resposta de Jesus revela uma dimensão da
imago Dei: a ação criativa, o ímpeto criador, o desejo de interferir no mundo, de
mudar a realidade, de transformar o Universo.
Mais surpreendente ainda é a sugestão feita por Jesus de que essa dimensão de
trabalho não conflita com o mandamento do descanso "Guardar o sábado",
santiíicando–o, separando–o para Deus, é um dos Dez Mandamentos da Lei de
Moisés. Alguns intérpretes da Lei foram literalistas e chegaram ao extremo de
considerar um ato mínimo, como tirar a casca de uma espiga de milho, uma
quebra do mandamento.
Uma das maneiras de interpretar esse rigor para a guarda do quanto mandamento
é o belíssimo conceito rabínico de descanso. Descansar e "não interferir na
realidade". Se sua casa está pegando fogo no sábado, não tente salvar nada, pois
você estaria trabalhando. Descanse. Diga ao Deus Eterno que você não vai mudar
o curso das circunstâncias e que, portanto, sua sorte está completamente rendida
às mãos dele, Deus. Descansar é recusar–se a mudar o que o Deus Eterno
determinou como su–cessão natural dos fatos. Nesse caso, existe apenas uma
possibilidade de não considerar o trabalho de Jesus no sábado quebra do
mandamento. De fato, ou a atividade de Jesus no sábado contraria a vontade de
Deus, ou, muito ao contrário, é justamente a expressão da vontade de Deus.
Em síntese, o mandamento de guardar o sábado foi uma forma de mostrar ao ser
humano que somente Deus é capaz de gerir sua Criação Nesse caso, trabalho é
igual a descanso quando o ser humano não tem a pretensão de tomar nas mãos o
controle do Universo, mas de se oferecer como instrumento para que Deus mesmo
administre o mundo, e essa vocação de exercer domínio sobre a criação mediante
a autoridade delegada por Deus é, sem dúvida, uma expressão da imagem de Deus
no ser humano.
Amanhã temos a ultima parte sobre a Imago Dei, finalizando com
A DIMENSÃO RELACIONAL DA IMAGO DEI!
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