Herdeiros de Platão e de sua teoria das ideias, quase todos os filósolos e teólogos
posteriores que abordaram o tema trataram a imagem de Deus como própria da
alma, não do corpo, e notadamente identificada com a mente–razão. Fílon de
Alexandria chamou a mente de "princípio hegemónico da alma". Gregório de
Nissa propôs que, assim como Deus tem mente e verbo, também o ser humano
possui a capacidade do co–nhecimento, expressões daquela mente e verbo
divinos. Agostinho de Hipona diz que "o homem representa Deus em relação ao
nobilíssimo ato que é conhecer– de fato, representa Deus não apenas enquanto
ente e vivente, mas também enquanto inteligente". Tomás de Aquino incluía o
conhecer e o querer como próprios da imagem de Deus no homem, mas dava
prioridade ao conhecimento em detrimento da vontade, afir–mando que a imagem
reside, sobretudo, na dimensão cognitiva, pois a vontade origina–se na memória e
na inteligência.
Compreender a mente–razão como expressão da imagem de Deus e inevitável.
Mas não precisamos ficar restritos ao conceito que faz a razão equivaler apenas ao
conhecimento e à capacidade de raciocínio. Devemos dar atenção às últimas
conclusões das pesquisas no campo da neurociência António Damásio escreveu Oerro de Descartes, em que discute as bases do cartesianismo na formação da
antropologia ocidental e suas influências na neurociência. René Descartes (1596–
1650), com sua famosa proposição: "Penso, logo existo", quer dizer que:
Eu soube que era uma substância cuja essência integral é pensar, que não havia
necessidade de um lugar para a existência dessa substância e que ela não depende
de algo material; então, esse 'eu', quer dizer, a alma, por meio da qual sou o que
sou, distingue–se completamente do corpo e é ainda mais fácil de conhecer do que
esse último; e ainda que não houvesse corpo, a alma não deixaria de ser o que é.13
Damásio denuncia que exatamente aí está seu erro:
A separação abissal entre o corpo e a mente, entre a substância corporal,
infinitamente divisível, com volume, com dimensões e com um funcionamento
mecânico, de um lado, e a substância mental, indivisível, sem volume, sem
dimensões e intangível, de outro; a sugestão de que o raciocínio, o juízo moral e o
sofrimento adveniente da dor física ou agitação emocional poderiam existir
independentemente do corpo. Especificamente: a separação das operações mais
refinadas da mente, para um lado, e da estrutura e funcionamento do organismo
biológico, para o outro.14
Quando falamos em razão mente alma, devemos incluir necessariamente os
atributos intelectuais, emocionais e volitivos sem jamais separá–los do corpo, a
dimensão física e material do ser humano.
O ser humano possui também uma dimensão moral ou, se você preferir,
consciência moral: o senso de certo e errado presente em todo ser humano de
todas as culturas e de todos os tempos. Paulo, apóstolo, falou a respeito desse
senso de certo e errado como algo que Deus semeou na mente humana:
A ira de Deus é revelada dos céus contra toda impiedade e injustiça dos homens
que suprimem a verdade pela injustiça, pois o que de Deus se pode conhecer é
manifesto entre eles, porque Deus lhes manifestou. Pois desde a criação do mundo
os atributos invisíveis de Deus, seu eterno poder e sua natureza divina, têm sido
vistos claramente, sendo compreendidos por meio das coisas criadas, de forma
que tais homens são indesculpáveis; porque, tendo conhecido a Deus, não o
glorificaram como Deus, nem lhe renderam graças, mas os seus pensamentos
tornaram–se fúteis e o coração insensato deles obscureceu–se... (De fato, quando
os gentios, que não têm a Lei, praticam naturalmente o que ela ordena, tornam–se
lei para si mesmos, embora não possuam a Lei; pois mostram que as exigências
da Lei estão gravadas em seu coração. Disso dão testemunho tam–bém a suaconsciência e os pensamentos deles, ora acusando–os, ora defendendo–os.) Isso
tudo se verá no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, mediante Jesus
Cristo, conforme o declara o meu evangelho.
Romanos 1:18–21; 2:14–16, NVI
"Além do Antigo e Novo Testamentos", disse C. S. Lewis, "há duas outras
maneiras como Deus se torna evidente para o ser humano: a primeira, pelo
Universo que ele criou, a segunda, pela consciência moral que ele colocou em
nossas mentes".15 Lewis comenta que a consciência moral e a melhor evidência,
porque se trata de uma informação intrínseca: "você encontra mais a respeito de
Deus na Lei Moral do que no universo em geral, assim como você enxerga
melhor um homem ouvindo sua conversa do que admirando a casa que ele
construiu".16
Finalmente, podemos falar da autoconsciência como um dos atributos humanos.
Dessa vez, precisamos da ajuda de Viktor Frankl, que disse que, para ouvir a voz
de sua consciência, o ser humano deve admitir que essa consciência é algo
diferente do eu, mais do que o eu, extra–humano, alem da mera condição humana,
isto é, transcendente:
Da mesma maneira como o umbigo humano, considerado por si mesmo, pareceria
sem sentido, porque só pode ser compreendido a partir da pré–história, ou melhor,
da história pré–natal do homem, como sendo um "resto" no homem que o
transcende e o leva à sua procedência do organismo materno, no qual estava
contido, exatamente desta mesma forma a consciência só pode ser entendida em
seu sentido pleno quando a concebermos à luz de uma origem transcendente.17
Esses atributos, consciência e autoconsciência, implicam o fato de que o ser
humano é capaz de se chamar de eu e de colocar–se em relação a outros eus.
amanhã vamos falar sobre A DIMENSÃO CRIATIVA DA IMAGO DEI
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