sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

A DIMENSÃO RELACIONAL DA IMAGO DEI


"Sob o nome de Deus a fé cristã vê o Pai, o Filho e o Espírito Santo em eterna
correlação, interpenetração e amor; de tal sorte que são um só Deus uno. A
unidade significa a comunhão das Pessoas divinas. Por isso, no princípio não
está a solidão do Uno mas a comunhão das três divinas Pessoas."
Com essas palavras de Leonardo Boff,24chegamos ao ponto mais alto e talvez
mais negligenciado da interpretação da imago Dei.
Ao comentar a natureza do Deus bíblico, Ricardo Barbosa afirma que ele é
essencialmente relacional. Esta é a diferença entre o monoteísmo trinitário cristão
e os outros monoteísmos unitários, como o judaísmo e o islamismo. Nestes,
encontramos a solidão do Uno, de um Deus que não tem nenhum outro igual com
o qual possa se relacionar. O cristianismo é a única religião monoteísta que crê
num único e indivisível Deus que se manifesta como uma Trindade de Pessoas. O
Deus cristão e bíblico não existe solitariamente, ele é sempre a comunhão das três
pessoas divinas.25
Essa percepção chegou–me ao coração há alguns anos atrás quando me deparei
com Gênesis 2:18 em que Deus declara solenemente: "Não é bom que o homem
esteja só; farei para ele alguém que o auxilie e lhe corresponda" (NVI). A
primeira vez em que prestei, de fato, atenção nessa declaração bíblica formulei
uma equação que, à primeira vista, soou esquisita: Deus mais um homem é igual a
um homem sozinho. Fiquei imaginando uma eventual cena, caso Adão se
aproximasse de Deus reclamando de sua solidão:
— Ok, Deus, passei o dia dando nome aos animais e percebi que todos eles
passaram em pares, macho e fêmea, e cada um saía de minha presença em busca
de um cantinho aconchegante, onde se aninhavam de mansinho. Fiquei com uma
tremenda inveja quando me dei conta de que, para mim, não existia par e, então,
me senti muito sozinho. Vim reclamar e, muito respeitosamente, apresentar
minhas críticas ao Universo que o Senhor criou. Está incompleto, falta alguma
coisa. Tudo o que o Senhor fez não é suficiente. Ainda não está bom.
Deus poderia responder, furioso, fazendo com que Adão compreendesse que ele
mesmo, Deus, era seu par:
— Que absurdo, você é tão estúpido que não consegue enxergar que o par do boi
é a vaca, do cavalo é a égua, do cachorro é a cadela e que Eu, o Senhor Todo–
Poderoso, Criador dos céus e da Terra, sou o seu par? Você não consegue
enxergar que nós formamos o par perfeito? Você não consegue perceber que o
jeito porque desejava me relacionar em termos especialíssimos com uma pessoaúnico a ser criado a minha imagem e semelhança é você, e que eu fiz você dessealém de mim mesmo? Ora, Adão, tenha a santa paciência...
Absurdo mesmo é esse diálogo entre Criador e criatura. Porém, mais absurda é a
afirmação de Deus a respeito da solidão do ser humano. Acredito que, por trás
dessa declaração, está a mais bela de todas as confissões de Deus e a mais elevada
expressão de sua essência, o amor, que se traduz em abnegação, altruísmo, doação
e autodoação. Por trás dessa declaração feita por Deus–"Não é bom que o homem
esteja só", consigo enxergar o diálogo da comunhão da Trindade:
— Nós não somos suficientes para a felicidade humana. Nós não bastamos para
que o homem seja plenamente realizado no Universo que criamos. Nossa
insistência em reivindicar a exclusividade da dedicação e afeição do homem vai
acabar condenando o a uma infelicidade crônica e eterna. Precisamos tomar
alguma providência.
A insuficiência de Deus e a consequente solidão do homem geram a necessidade
da criação da mulher.
Depois que formou da terra todos os animais do campo e todas as aves do céu, o
SENHOR Deus os trouxe ao homem para ver como este lhes chamaria; e o nome
que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome. Assim o homem deu
nomes a todos os rebanhos domésticos, às aves do céu e a todos os animais
selvagens. Todavia, não se encontrou para o homem alguém que o auxiliasse e lhe
correspondesse. Então o SENHOR Deus fez o homem cair em profundo sono e,
enquanto este dormia, tirou–lhe uma das costelas, fechando o lugar com carne.
Com a costela que havia tirado do homem, o SENHOR Deus fez uma mulher e a
levou até ele. Disse então o homem: "Esta, sim, é osso dos meus ossos e carne da
minha carne! Ela será chamada mulher, porque do homem foi tirada". Por essa
razão, o homem deixará pai e mãe e se unirá à sua mulher, e eles se tornarão uma
só carne. O homem e sua mulher viviam nus, e não sentiam vergonha.26
A partir dessa narrativa, observamos que Adão enxergava Eva como extensão de
si mesmo, até porque estavam vocacionados a se tornarem "uma só carne".
De fato, Deus mais um homem é igual a um homem sozinho. E isso não é bom,
não é suficiente, não é bastante. Demorou para que eu entendesse a afirmação de
Deus. Tudo ficou claro quando consegui enxergar Deus como Pai, Filho e
Espírito Santo, distinguindo as pessoas e crendo que me relaciono com um Deus
em três pessoas distintas porém iguais. Aí está o segredo. Deus é uma comunhão
entre iguais. O ser criado à sua imagem e semelhança deveria, necessariamenteser completo apenas e tão somente numa relação entre iguais. Isso explica por que
Deus disse que o homem estava só. O homem possuía alguém acima dele – Deus
–, e tambem abaixo dele – o restante da criação –, mas não possuía ninguém ao
lado dele, como seu igual, e nessa dimensão estava sozinho.
Ariovaldo Ramos afirma que essa é a mais característica expressão da imagem de
Deus no ser humano. Considerando que todo o Universo está impregnado de
Deus, podemos afirmar que a imagem de Deus está em todo o Universo. Por outro
lado, considerando que a Bíblia afirma que Deus criou o homem à sua imagem e
semelhança, podemos depreender que existe uma dimensão da imagem de Deus
que apenas o homem consegue expressar, e essa dimensão é a unidade na
diversidade, a capacidade de pessoas distintas tornarem–se uma só.
O argumento de Ariovaldo faz sentido. Até agora, falamos que Deus é Espírito, e
que, portanto, o ser humano também é um ser espiritual. Dissemos que Deus é um
ser pessoal, Espírito com atributos intelectuais, afetivos e volitivos, e que,
portanto, o ser humano também é uma pessoa. Dissemos que Deus é criativo e
ativo, e que exerce domínio sobre a sua criação, e que, portanto, o ser humano
também atua criativamente trans–formando o mundo. Mas é fato que o ser
humano não é o único ser espiritual, pessoal e determinado, identificado na Bíblia
Sagrada: os anjos e os demônios também o são. Resta concordar com Ariovaldo
quanto ao fato de que a única dimensão de Deus da qual apenas e tão–somente o
ser humano é portador é a vocação de unidade–unicidade, a capacidade de formar
comunidade, de se tornar um, um entre seus iguais e um com Deus Tri–Uno.
Essa unidade da humanidade explica o conceito cristão de salvação, pois o
propósito eterno de Deus é a geração de um novo homem, e esse homem novo é
coletivo, pois o objetivo dele (Cristo) era criar em si mesmo, de toda a
humanidade, um só homem novo,27 e por isso orou ao Pai pedindo:
Para que todos sejam um, Pai, como tu estás em mim e eu em ti. Que eles também
estejam em nós [...] para que eles sejam um, assim como nós somos um: eu neles
e tu em mim. Que eles sejam levados à plena unidade, para que o mundo saiba
que tu me enviaste, e os amaste como igualmente me amaste. Pai, quero que os
que me deste este–jam comigo onde eu estou e vejam a minha glória, a glória que
me deste porque me amaste antes da criação do mundo.
João 17:21–24, NVI
Por essa razão, Paulo, apostolo deixa claro que a experiência com o Cristo é
também uma experiência com o corpo de Cristo:Ora, assim como o corpo é uma unidade, embora tenha muitos membros, e todos
os membros, mesmo sendo muitos, formam um só corpo, assim também com
respeito a Cristo. Pois em um só corpo todos nos fomos batizados em um único
Espírito: quer judeus, quer gregos, quer escravos, quer livres. E a todos nós foi
dado beber de um único Espíri–to. O corpo não é feito de um só membro, mas de
muitos. Se o pé disser: "Porque não sou mão, não pertenço ao corpo", nem por
isso deixa de fazer parte do corpo. E se o ouvido disser: "Porque não sou olho,
não pertenço ao corpo", nem por isso deixa de fazer parte do corpo. Se todo o
corpo fosse olho, onde estaria a audição? Se todo o corpo fosse ouvido, onde
estaria o olfato? De fato, Deus dispôs cada um dos membros no corpo, segundo a
sua vontade. Se todos fossem um só membro, onde estaria o corpo? Assim, há
muitos membros, mas um só corpo.
O olho não pode dizer à mão: "Não preciso de você!" Nem a cabeça pode dizer
aos pés: "Não preciso de vocês!" Ao contrário, os membros do corpo que parecem
mais fracos são indispensáveis, e os membros que pensamos serem menos
honrosos, tratamos com especial honra. E os membros que em nós são
indecorosos são tratados com decoro especial, enquanto os que em nós são
decorosos não precisam ser tratados de maneira especial. Mas Deus estruturou o
corpo dando maior honra aos membros que dela tinham falta, a fim de que não
haja divisão no corpo, mas, sim, que todos os membros tenham igual cuidado uns
pelos outros. Quando um membro sofre, todos os outros sofrem com ele; quando
um membro é honrado, todos os outros se alegram com ele. Ora, vocês são o
corpo de Cristo, e cada um de vocês, individualmente, é membro desse corpo". 1
Coríntios 12:12–27, NVI
De modo que todos vocês são filhos de Deus mediante a fé em Cristo Jesus, pois
os que em Cristo foram batizados, de Cristo se revestiram. Não há judeu nem
grego, escravo nem livre, homem nem mulher; pois todos são um em Cristo
Jesus.28
Essa é a justificativa da dimensão relacional da imago Dei. Deus é Uno, mas é
Três, distinto entre iguais. Assim também o ser humano é pleno apenas na
comunhão entre iguais, e tanto mais será um reflexo da ima–gem de Deus quanto
mais desenvolver essa unidade com o próximo e com Deus.
CONCLUSÃO
Espero que não me tomem como alguém que foge do debate com a ciência, mas
não quero tomar partido na discussão entre evolucionismo e criacionismo, exceto para afirmar perigosamente que não vejo incompatibilidade entre o criacionismo e
determinadas categorias do evolucionismo. Isto é, não faço questão de afirmar (e,
no fundo, considero tolice) que o ser humano criado por Deus no Gênesis
equivale ao espécime contemporâneo que transita pela Avenida Paulista em São
Paulo. Aprendi na escola que a seleção dos humanóides, antes de dar a camisa dez
ao Homo sapiens sapiens, teve alguns outros artilheiros no campeonato da
peregrinação na história natural, como por exemplo o Homo habilis (2,5 milhões
de anos), Homo erectus (1,8 milhão de anos), o Homo sapiens arcaico (500 mil
anos), até que finalmente o Homo sapiens sapiens chega à Europa há
aproximadamente 40 mil anos. O fato é que a imagem de Deus (e isso para mim é
uma grande notícia) parece muito mais uma semente plantada na espécie humana
– e somente na espécie humana –, semente essa que evolui e conduz o ser humano
a degraus mais elevados de existência. C. S. Lewis diz que:
O homem moderno talvez entenda melhor a ideia cristã da transformação se a
relacionar com a da evolução – embora, é claro, haja alguns espíritos ilustrados
que duvidem de sua existência – ; e a todos nós ensinam que o homem evoluiu a
partir de formas inferiores de vida. Em consequência, as pessoas às vezes se
perguntam: E qual será a próxima etapa? Quando surgirá o ser que ultrapassará o
homem? Ora bem, se você gosta de pensar nestes termos, o que o cristianismo nos
diz é precisamente que esse "novo passo" já se deu e que realmente é inovador.
Não é uma mudança de homens com cérebro para homens com mais cérebro
ainda; é uma mudança que envereda para rumos completamente inesperados – a
mudança da condição de criaturas de Deus para a condição de filhos de Deus. E o
primeiro exemplar da nova espécie já apareceu na Palestina, há dois mil anos. Ele
não é apenas um homem novo, um espécime dessa espécie, mas o homem novo.
Ele é a origem, o centro e a vida de todos os homens novos. Veio por vontade
própria ao Universo criado, trazendo consigo a Zoe, a nova vida – nova para nós,
quero dizer, porque nele a Zoe sempre existiu. E transmite–a não por hereditariedade,
mas pelo que chamei de bom contágio. Todos os que recebem essa
vida fazem–no por um contato pessoal com ele. Os homens são novos por estarem
em Cristo. Milénio após milénio, Deus foi dirigindo a natureza até ao ponto em
que pudesse produzir criaturas capazes de transcendê–la e de transformar–se em
"deuses", se assim o quisessem."'
Esse parágrafo de C. S. Lewis é um dos textos da literatura universal que
sustentam minha fé no cristianismo e no Cristo. Ele me coloca ao lado e acima do
mais avançado que a ciência já conseguiu chegar em tratar do ser humano em sua
origem, evolução e destino, bem como ao lado e acima de todas as tradições de
espiritualidade já discernidas no planeia A afirmação central do cristianismo está
assim exposta: Deus me fez para que eu me tornasse como Cristo. E tudo quantodevo me tornar como ser humano. Jesus Cristo foi em sua peregrinação terrena. A
imagem de Deus esta explícita em Jesus de Nazaré e em sua humanidade perfeita.
Os santos apóstolos disseram: "No princípio era o Verbo [Logos], e o Verbo
estava com Deus. [...] E o Verbo era Deus. O Verbo se fez carne e habitou entre
nós [...] e vimos sua glória, glória como a do unigénito [único gerado versus
criado] do Pai";'0 Deus nos predestinou a ser "conformes a imagem de seu Filho, a
fim de que ele seja o primogénito dentre muitos irmãos";111 Ele é antes de todas as
coisas, e nele tudo subsiste |...| é o princípio e o primogénito dentre os mortos [...].
Pois foi do agrado de Deus que nele habitasse toda a plenitude".:32Jesus de
Nazaré, o Cristo, e, portanto, o padrão do que é humano. Aquele que realmente
deseja saber o que é a imagem de Deus no ser humano, mais do que perder–se em
elucubrações teológicas e filosóficas, deve olhar para Jesus.
A dimensão pessoal da imago Dei é o conjunto de dotações e de capacidades
inerentes ao ser humano, e que o distingue do que não é humano. E ninguém
duvida de que Jesus de Nazaré, a quem mesmo os que não consideram Deus
chamam de "o mais iluminado de todos os espíritos que pisou no planeta", foi
digno representante de todas as capacidades que Deus pudesse ter compartilhado
com o ser humano. A dimensão relacional da imago Dei está explícita em Jesus
de Nazaré, pois ninguém discute sua capacidade de amar incondicionalmente,
bem resumida na apresentação que Pedro, apóstolo, faz dele em Atos 10:38 como
aquele que andou fazem do o bem. A dimensão criativa da imago Dei também é
expressa por Jesus, evidenciada pelo seu domínio sobre o restante do Universo
criado. Jesus deu provas suficientes de que o mundo lhe obedecia: ele acalmou
tempestades, curou enfermos, alterou os elementos (multiplicou pães e peixes,
transformou água em vinho), e até mesmo ressuscitou pessoas. Tudo fez com
exata consciência de si mesmo e de sua vocação. Entendia–se não apenas como o
Filho de Deus, mas também como o Filho do homem. Sabia que viera ao mundo
para "buscar e salvar o que estava perdido",33 e não "para ser servido, mas para
servir e dar a sua vida em resgate por muitos".34 Finalmente, a dimensão espiritual
da imago Dei é a própria identidade de Jesus. Sendo Deus encarnado e sabendo
que Deus é Espírito, ninguém mais expressou em termos absolutos a Pessoa de
Deus quanto Jesus, que, por isso, foi chamado "o Cristo".
Essas são as razões por que o cristianismo é o caminho daqueles que escolheram
responder ao sentido da vida a partir da imago Dei conforme expressa em Jesus de
Nazaré, o Cristo de Deus.

Nenhum comentário:

Postar um comentário